No mesmo debate, o sambista e escritor Nei Lopes defendeu a existência de uma literatura afro-brasileira.
Brasília – A escritora mineira Conceição Evaristo defendeu nesta semana, durante debate na 1ª Bienal do Livro e da Leitura, a escrita como um direito de todos, que alcance camadas mais pobres da população e mesmo as excluídas em certos contextos, como as mulheres. “Tanto como a saúde e a educação, as populações pobres e as mulheres têm direito de se apropriar de um instrumento que, por vezes, é encarado como propriedade de certos estratos sociais”, disse.
Para ela, esses grupos precisam garantir o acesso à linguagem, à leitura e à escrita ou estarão sendo lesados em sua cidadania. “Essas populações precisam se apropriar desse direito para uma cidadania plena. O domínio da leitura e escrita é essencial, principalmente, em uma sociedade em que vale o que está escrito”, defendeu a autora de Ponciá Vicêncio.
Em um debate sobre o papel do negro na literatura brasileira, Conceição lembrou da construção ficcional de personagens negras, principalmente a de mulheres a quem, em geral, é negado o direito à maternidade. “Na literatura brasileira, nossas mulheres negras não são mães. No máximo, a mãe preta, que cuida da prole alheia”, disse a escritora mineira.
Para ela, da mesma forma que o discurso histórico tenta esconder os feitos e as contribuições de negros africanos para a construção do Brasil, a literatura pode estar caminhando nessa mesma direção ao silenciar personagens negras. Ela citou romances como São Bernardo, de Graciliano Ramos, e Agosto, de Rubem Fonseca, como exemplos de textos em que os negros existem como personagens, mas não têm direito à fala. “O que uma ficção que cria personagens sem fala está construindo? A literatura brasileira nega a presença negra na constituição da nacionalidade brasileira?”.
Perguntada sobre estratégias para quebrar esse silenciamento – tanto na literatura como na vida das mulheres –, ela citou a educação como ponto prioritário. “É a questão de furar brechas, de se apropriar de determinados conhecimentos. Volto à questão da escrita, da alfabetização. [É preciso] furar esses espaços e se apropriar dessas ferramentas que, se não propiciam um lugar melhor economicamente, propiciam possibilidade de crítica e enfrentamento.
No mesmo debate, o sambista e escritor Nei Lopes defendeu a existência de uma literatura afro-brasileira. “A literatura negra existe. Ela [a literatura] é um conjunto de criações que se referem a determinado contexto geográfico, linguístico ou temporal. No caso da literatura afro-brasileira, o elo é a questão identitária [que cria identidade]”, defendeu o autor da Enciclopédia Brasileira da Diáspora Africana.
Fonte: http://www.africa21digital.com, em 22 de abril de 2012
domingo, 22 de abril de 2012
sábado, 31 de março de 2012
Escuridão
Ela pisou no freio quase que por um reflexo. Foram os 10 segundos mais longos de sua jovem vida. Ela viu a escuridão. Foi assim que ela própria descreveu aquele momento. Nada de ver a vida passar tão rápido, apenas escuridão. Quando acordou, já estava num quarto. Sentiu. Sua mãe, cansada, dormia numa cama improvisada ao lado. Sabia que pelas circunstâncias, estava tudo bem, ou quase tudo. Lúcida, lembrou do ocorrido. -- Nunca imaginei passar por isso, pensou. Mas ninguém nunca pensa. O imprevisível há de ser como um assopro. Desses que nos arrepiam a nuca quando estamos sozinhos em casa. Dizem os crentes: -- É a morte! Os céticos certamente vão dizer que um mero acaso, a brisa do verão, ou do inverno, tanto faz. Os esotéricos, esses vão intuir. Pressentimento. É claro, ninguém espera morrer. Ainda mais tão jovem e cheia de uma longa e bela vida pela frente. Às vezes, nem tão bela assim. Mas pouco importa. Os olhos já estavam abertos. Sentiu. A mão da mãe tocou-lhe o braço, pensou que a via, com o mesmo ar de cansaço de antes. Mas nada mais se viu.
segunda-feira, 31 de janeiro de 2011
Haiti, um ano depois do terremoto, país segue arrasado

Um ano após terremoto no Haiti, país ainda é território arrasado, tem política instável e depende de uma ajuda internacional que nunca chega; enquanto isso, as informações trazidas ao Brasil são comoventes, mas estão longe de gerar a indignação necessária à mobilização por mudanças no país mais pobre das Américas
O Jornal Hoje do dia 12 de janeiro de 2011, dia em que se completou um ano desde que um terremoto que arrasou a capital haitiana Porto Príncipe, matou 250.000 pessoas e deixou cerca de 1,5 milhões de desabrigados, apresentou uma matéria sobre o que acontece no país, um ano depois. O ancora do telejornal apresentou a matéria dando ênfase ao fato de aquele ter sido um dos piores terremotos da história do país. Na seqüência, a correspondente no Haiti, repórter Lilia Teles, afirmou que “poderíamos passar horas listando os problemas do Haiti”, mas que “em respeito à luta desse povo e a história dele, decidimos falar das coisas boas, da fé, da alegria do haitiano”.
A abordagem, pautada na capacidade daquele povo em “dar a volta por cima e de lidar com as adversidades, sem perder a esperança”, é comovente, pois nos mostra um lado bem humano e solidário dos haitianos. Por outro lado, por deixar de lado todas as mazelas que vêm sofrendo àquele povo, não causa indignação, nem nos mobiliza para uma ação mais contundente em relação ao país.
Afinal, um país cuja população é de maioria negra, de descendentes de escravos, um país que foi usurpado durante séculos pela colônia, que é pobre – miserável poderia se dizer -, e que viveu ditaduras terríveis e que só recentemente (e de forma embrionária) conquistou a democracia, deve estar acostumado a viver no infortúnio e no desamparo.
Essa seria uma das formas de se explicar porque, por ocasião de catástrofes em cidades de países desenvolvidos, tanto a comoção internacional quanto a reconstrução local parecem ser maiores e mais ágeis. É como se a carência do povo fosse uma indicação para os chefes globais de que é possível para tal população conviver com a fome, a sede, a doença, a violência física, a agressão moral, a miséria. É isso que se vê no Haiti.
Tem esperança? Sim tem esperança, mas também tem milhares de crianças órfãs abrigadas em asilos (algumas levadas pela “solidariedade internacional” para fora do país como “cães sem dono”); tem estupros contra mulheres e crianças nos acampamentos (algumas delas, conforme denúncias, cometidas por soldados de tropas estrangeiras); tem violência cotidiana causada pelas necessidades de água, tem falta de água potável; tem a cólera, não bastasse tudo, a epidemia de cólera matou desde outubro do ano passado quase 3,8 mil pessoas e afetou mais de 181 mil haitianos; e, a miséria e a forme que já eram parte do cotidiano haitiano, aumentaram significativamente.
Cuba, por exemplo, que passa por uma de suas maiores crises econômicas, com falta de emprego, diminuição das importações, fechamento de empresas estatais e tragédias naturais (em 2009 a ilha foi afetada por furacões que causaram prejuízos de 10 bilhões de dólares) enviou no final do ano passado, mais uma equipe de médicos para o Haiti. Os médicos cubanos – 1200 no total – já são a maior brigada estrangeira, tratando cerca 40% dos que foram acometidos pela cólera no Haiti.
Os médicos cubanos estão “trabalhando em 40 centros em todo o Haiti, tem tratado mais de 30.000 doentes de cólera desde outubro”, informa Nina Lakhani, em artigo publicado no The Independent, em 26 de dezembro de 2010. “Em meio à fanfarra e publicidade em torno da chegada de ajuda dos EUA e do Reino Unido, centenas de médicos, enfermeiros e terapeutas cubanos chegaram discretamente. A maioria dos países foi embora em dois meses, novamente deixando os cubanos e os Médicos Sem Fronteiras como os principais prestadores de cuidados para a ilha caribenha”, diz o texto. Clique aqui para ler.
Outro grupo de médicos cubanos que fazem parte da Brigada Henry Reeve, que é especializada em desastre e em emergência, também chegou recentemente ao Haiti. A Brigada Henry Reeve é a mesma que foi rejeitada pelos norteamericanos após o furacão Katrina, em 2005 e que foi a primeira a chegar ao Paquistão após o terremoto de 2005.
O Brasil, desde 2004, mantém soldados do exército no Haiti, atuando dentro da Missão de Estabilização da ONU – Minustah. Hoje, a mesma missão está sendo acusada pelos haitianos de ter levado a cólera ao país, uma vez que os soldados “estariam usando” o Rio Artibonité, fonte de água para a população, como latrina.
Como se observa, as informações são todas muito desencontradas, e em geral, vindas de fontes exteriores. Conforme afirma editorial do Jornal Brasil de Fato “não fosse a atuação de duas brigadas internacionalistas da América Latina – a de médicos cubanos e da Via Campesina –, a atuação dos países da região seria, no mínimo, vergonhosa”. Enquanto o Haiti segue, um ano após o terremoto, complemente destruído e instabilizado politicamente (vide eleições presidenciais), nós aqui continuamos de braços cruzados e desinformados acerca do que de fato acontece lá.
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